sábado, 28 de janeiro de 2012

Vidinha

Um pequeno passado
e um grande futuro
alguns poucos passos
e muito para andar

Alguns poucos trajes
e tanto para vestir
Alguns poucos risos
e tanto para sorrir

Poucos verões e outonos
poucas primaveras e invernos
tão poucas luas

Tão cedo chegou o dia
que logo se tornaria
o interromper da vidinha.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Fim do Mundo

O Sitio

Convidado para passar a noite no sitio do amigo José por conta do horário e transporte por aquelas bandas para voltar a cidade só de frente da vendinha de seu João,as cinco da manhã em ponto.
Convite aceito fomos jantar,quando vi o Zé sentar na mesa pensei,quantas pessoas viram jantar hoje?umas dez?quem convidou?o Zé?ele deve ter convidado o povoado todo,vai ser uma festa e ele não me avisou,engano meu,aquela comida toda era só pra ele,o que havia no fogão e na geladeira,ele não esqueceu nem a salada que pela quatidade dava para alimentar um coelho por três ou quatro dias.
Mas pra que tanta comida Zé?o que é isso?
-Medo,respondeu o ele.
Medo?as pessoas têm medo de rato,cobra,insetos,o que tem haver medo com essa comida toda?
-Medo de morrer de fome dormindo.
Sério?você está falando sério?isso é brincadeira?
Zé me olhou com uma cara de reprovação que pude perceber que era sério,ele tinha mesmo medo de morrer de fome dormindo,por isso comia tanto antes de dormir.
Depois de alguns minutos de espanto,resolvi fazer o meu prato e comer alguma coisa,antes que ele desse fim ao estoque de comida da casa.
Admirei aquela cena,bem,pelo menos não há desperdicio de alimento nessa casa,e ele não parava a boca,comia como se o mundo fosse acabar.
Já satisfeito com a minha porção,passei a apreciar aquela comilança,ele não satisfeito com tudo que comeu foi olhar as panelas e encontrou um caldo de carne que sobrou do almoço e colocou para ferver e fêz um pirão,comeu.
Enfim, terminado o jantar,após cerca de dua horas de uma bela demonstração de apetite,me mostrou meu quarto e foi dormir.
O sitio era daqueles bem simples,tinha luz elétrica,mas esse era um dos poucos luxos,uma geladeira que nem me dei ao trabalho de abrir,pelo apetite do morador não deveria ter nada mesmo,uma televisão pequena,que servia de móvel,ele não ligou a televisão,que coisa,um rádio mudo,eu poderia dizer que o Zé não era uma pessoa antenada,internet nem pensar,acho que ele não sabia o que era computador.
Sempre tem o lado bom,com as luzes apagadas pude ver,por uma fresta no telhado o claro da lua,e o silêncio era inebriante,dava para ouvir ao longe o coachar dos sapos e o cri cri dos grilos,uma sinfonia,um convite a uma bela noite de sono que eu aproveitaria,já o Zé.

O Pesadelo do Zé.

Alta madrugada e a farta refeição começava a fazer efeito,o Zé ouviu um bater na porta alto e insistente,levantou mau humorado,xngando e reclamando de tudo e de todos,esbravejava.
- Quem será a uma hora dessas,seja quem for vai ouvir o que quer e o que não quer,vou xingar até o rastro desse miserável,desse disgraçado,isso são horas?
Ele foi olhar pelo vidro da janela pra ver se via alguma coisa,levou um susto,um relâmpago clariou a sala e até onde a vista alcançava,um trovão em seguida,estremeceu até os ossos do Zé,o humor piorou.
O bater insistente na porta seguia,ele segurou o trinco da porta,respirou fundo,tentou lembrar dos piores palavrões que já ouvira e decidiu vou esculhambar agora.
Abriu a porta e deu de cara com uma entidade,o susto foi maior que o do relâmpago,o que aparentava ser um homem,vestido com uma capa de chuva preta,um capus que lhe cobria a cabeça e não permitia ver o rosto e uma foice na mão com um cabo comprido,Zé concluiu.
É a morte,ele lembrou de uns quadrinhos antigos que havia folheado na infância e a vestimenta batia,era ela.Pensou.
Tá perdoada,essa eu não xingo
Com a voz meio trêmula falou.
-Dona morte,a senhora por aqui?A que devo a visita?

A Entidade

-Não sou a morte.
-Não?
-Não,posso entrar?
A cor voltou a fisionomia do Zé.
-Pode,entre por favor,mas quem é você?
-O fim do mundo.
-O que?
O coração do Zé veio até a boca e voltou
-O que disse?
-Disse que não sou a morte,sou o fim do mundo.
-Mas e essas roupas?e a foice?
-É que a morte é uma invejosa,vive me imitando em tudo,até nas roupas.
-Mas o que você está fazendo na minha casa,isso é o fim do mundo!.
-Sou eu.
-Não,eu quero dizer,isso é impossivel!
-Não é impossivel,eu só quero conversar.
-Conversar?comigo?é o fim do mundo!
-Sou eu.
-Meu Deus!
-Tava ocupado,sabe como é né,muito compromisso.
-Não!eu quero dizer o que você quer conversar comigo!veio acabar o mundo e resolveu começar pelo meu sítio?isso é covardia.
-Não Zé,eu só quero conversar.
O diálogo se repete.
Conversar?comigo?
-É Zé só conversar
-Me desculpe,mas acho que o senhor errou o endereço.
-Por quê Zé?
-O que voce vai querer conversar com um matuto como eu?eu só sei plantar,esperar e colher.
-Isso mesmo,você sabe de muita coisa.
-Eu?
-É,você Zé,você tem muita esperiência no que faz,você conhece o tempo das chuvas,o tempo do estio,você sabe a melhor época de plantar,quando está bom pra colher,você é um especialista no que faz,como todos os outros que conheço.
-E daí?que culpa eu tenho de ser um especialista no que faço,sempre achei que era certo ser um especialista,aliás eu sempre quis ser um especialista,sempre quis conversar com especialistas,sempre quis ser atendido por especialista,onde foi que eu errei?
-Você está certo Zé,não tem nada de errado em ser um especialista.
-Nada?então o que diabos você esta fazendo aqui?
-Eu já disse só quero conversar.
Chega de repetir diálogo.
-Então diga,fale,se não veio acabar o mundo o que você disser eu escuto.
-O problema é que eu não sou um especialista.
-Meu Deus!
-Já disse tava ocupado.
-Não!quero dizer,e daí,você não é um especialista e qual é o problema?
-É que todo mundo que conheço é especialista no que faz e eu não,seja um agricultor como você,seja um médico,um engenheiro,um advogado,todos menos eu.
Zé pensou:Agora a vaca foi pro brevo e levou a boiada toda,estou com o fim do mundo na minha casa ele tá vestido de morte e com pití.
-Afinal de contas você é ou não é o fim do mundo?
-Sou.
-E o que você quer comigo?
-Já disse conversar.
Zé já não sabia mais o que pensar,e notou que fazendo as mesmas perguntas o mundo se acabava e ele não iria ter uma resposta clara,resolveu deixar o fim do mundo falar a vontade.
-Então conte tudo,me diga o que quer e o que veio ver aqui,conte tudo.
-Você ouve rádio Zé?
-As vezes.
-Você vê tv?
-Televisão?
-É Zé tv.
-Tenho tempo não,acordo as quatro da manhã tomo café e vou pro roçado,só chego de noite,tomo banho como e vou dormir,isso todo santo dia faça chuva ou faça sol.
-Como pensei,então você não esta sabendo o que estão falando do fim do mundo.
-Estão falando de você?mas a lingua do povo não perdoa ninguém mesmo,até de você estão falando.
Zé parou por um instante e refletiu:Estão falando até dele o que dirá de mim.
-Estou vendo que você não tem internet em casa.
-O quê?
-Internet Zé.
-Computador?
-Isso,computador.
-Dona morte.
-Não Zé ! sou o fim do mundo.
-Desculpe é a sua roupa
-Tudo bem você não é o único a se confundir
-Seu fim do mundo,posso lhe chamar assim ou prefere outro tratamento.
-Tudo bem Zé.
-Pronto,me diga o que é que eu vou fazer com um computador,coisa que eu não sei nem pra onde vai.
- Interagir Zé,saber as novidades,falar mal de politico,essas coisas.
-Olhe,quando eu quero saber das novidades,que são sempre as mesmas,eu vou na venda de seu João que é um enrolão,por falar nisso não beba lá não,se quizer tomar umas cachacinhas tem uma venda na saída do povoado
O fim do mundo o interrompe.
-Zé!
-Como eu dizia,quando quero saber as novidades eu tomo umas pingas na venda de seu Jõao e ele me conta tudo,tome cuidado com ele,ele sabe da vida de todo mundo por aqui,tem gente que você nem imagina que deve a ele.
-Você não sabe mesmo o que estão falando do fim do mundo,do calendário Maia.
Zé realmente não sabe do que se trata.
-Mas veja você hein,até desse tal Maia e do calendário dele o povo tá falando,continue,eu já não me espanto com mais nada.
-É isso Zé todo mundo está falando de mim e eu não sei o que fazer.
-E você precisa mesmo fazer alguma coisa?deixa isso pra lá,é a lingua do povo,igualzinho seu João da venda
-Eu não posso deixar pra lá Zé,tem gente que acredita em mim.
-Olha você é uma pessoa de sorte,se é que você é uma pessoa,eu vivo querendo que os outros acredite em mim e não tem jeito,se eu digo que vai chover você acredita que eles só concordam se eu pagar umas pingas
-Não é isso Zé é que estão acreditando em mim e vai ser a minha primeira vez.
Agora complicou o juizo do pobre do Zé.
-Como é?diga de novo!estão acreditando em você e você é virgem?
-Não Zé estão acreditando em mim e não sei acabar o mundo,eu não sou um especialista,se eu fizer isso vai ser a minha primeira vez,entendeu meu problema agora?
-E eu que achava que tinha problema,tudo bem você ganhou,quer uma àgua com açúcar,um chá,tem um chá aqui que é bom pros nervos eu vou ver pra você.
-Não Zé eu lá sou homem de tomar chá,eu só quero saber o que é que eu faço,e se eu errar?e se eu for acabar o mundo e o mundo não acabar?as pessoas vão deixar de acreditar em mim,e se ninguém acreditar em mim como é que eu vou ficar?
Uma coisa estava certa na cabeça do Zé:Com o fim do mundo em crise e conversando com ele essa conversa comprida o mundo não vai se acabar tão cedo.
O galo canta a pleno pulmões,Zé toma outro susto,dessa vez ele acorda.
Hora de trabalhar Zé,deixa o fim do mundo pra lá,pensa em como fazer de cada amanhecer um novo começo,porque tudo tem um começo,e o fim?o fim é quando acaba.







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